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quarta-feira, 10 de junho de 2009

REDE FITOVIDA

Pesquisa revela rico universo de mulheres herbalistas da Baixada
Vilma Homero
Arquivo Pessoal

Câmera na mão, Mariana Leal dá voz às senhoras herbalistas da paróquia de Belford Roxo em seu vídeo
As quintas-feiras são movimentadas na Igreja Nossa Senhora de Fátima, no bairro Santa Maria, em Belford Roxo, Região Metropolitana do Rio. Na cozinha instalada nos fundos da paróquia, a procura por remédios fitoterápicos não pára. Moradores da comunidade procuram medicamentos para tratar os mais diversos problemas de saúde e são atendidos pelas integrantes do grupo Grão de Mostarda, mulheres acima dos quarenta anos cujo conhecimento sobre o uso de plantas medicinais as transformou em referência no bairro. Elas também são objeto da pesquisa Mulheres da Rede Fitovida: ervas medicinais, envelhecimento e associativismo e do vídeo etnográfico Curandeira é a vovozinha, que a antropóloga e jornalista Mariana Leal, do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), desenvolveu com apoio do programa Bolsista Nota 10, da FAPERJ. Em sua maioria, são mulheres acima dos 60 anos, que deixaram de ficar restritas ao espaço doméstico – onde muitas vezes não mais tinham função por já haver passado da fase reprodutiva e não precisar mais cuidar dos filhos –, passando a ser consideradas como as detentoras de um saber. São elas que identificam as plantas e conhecem a indicação de uso de cada uma delas", explica Mariana. A pesquisa procurou analisar os aspectos culturais, práticas curativas e transmissão de conhecimentosde um dos diversos grupos que fazem parte da Rede Fitovida. Através da metodologia antropológica e do registro audiovisual, o vídeo e a pesquisa mostram quem são essas mulheres, o que fazem e por que fazem.
O grupo escolhido foi o Grão de Mostarda. Assim como as senhoras que o integram, existem muitas outras mulheres de idade, de camadas populares, que se reúnem em cozinhas comunitárias, em localidades de baixa renda. Elas fazem parte dos 108 grupos que integram a Rede Fitovida, criada em 2000 para transmitir conhecimento e buscar soluções conjuntas para superar as dificuldades que todas enfrentam. Suas principais características são o trabalho voluntário e a venda de preparações medicamentosas a preço de custo. Mas além de cuidarem de familiares e vizinhos com seus fitoterápicos, elas também reivindicam que o saber que detêm seja valorizado e reconhecido como parte do patrimônio cultural imaterial. "Esse conhecimento é passível de se perder, de ser cada vez mais estigmatizado como ignorância, ou superstição, numa esfera em que só a medicina pode ser detentora do saber", fala a pesquisadora.
Para isso, as vovós andam se empenhando em inventariar seu conhecimento. Nesse sentido, a rede conta com apoio do Ministério da Cultura, através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e da Petrobras, que está financiando o inventário dessa tradição popular. "Elas também estão contribuindo com técnicos dos ministérios de Meio Ambiente e da Saúde, num trabalho ligado ao patrimônio genético vegetal e para o registro nacional de fitoterápicos e plantas medicinais", esclarece Mariana. Para a pesquisadora, a escolha do tema seguiu uma tendência natural. "A vida toda sempre me interessei pelas opções alternativas, o que faz parte de minha postura com relação à saúde. Quando conheci o grupo, um movimento reivindicatório de mulheres de meia-idade, achei inusitado, no mínimo curioso", explica. "Também busquei analisar as motivações individuais dessas mulheres e percebi que ao participarem dos grupos e dos encontros da Rede Fitovida – em que há troca de conhecimento e de experiências – elas transformam sua própria percepção enquanto sujeitos em processo de envelhecimento, resignificando alguns estigmas negativos da velhice", diz.
Arquivo pessoal

Cultivadas na horta comum, as ervas são transformadas em garrafadas e remédios
Mariana fala que, a princípio, as vovós dos vários grupos tinham trabalhos isolados, sem ter clara a importância do que faziam, nem os caminhos que poderiam trilhar. "Elas viam sua atividade apenas como produção de fitoterápicos. Mas sem se encaixar nas normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), podiam ser consideradas curandeiras e sujeitas às penalidades da lei", conta. Ao mesmo tempo, essas mulheres começaram a perceber no dia-a-dia o quanto seu trabalho era importante para os as pessoas que as procuravam, em sua maioria gente para quem grande parte dos remédios de farmácia tem preço proibitivo. Mais do que apenas indicar fitoterápicos, elas costumam orientar aqueles que as procuram com noções básicas de saúde, higiene e alimentação. "Uma das primeiras perguntas das vovós do Grão de Mostarda fazem, por exemplo, é se o paciente já procurou um médico. Caso não tenha procurado, elas orientam a fazer uma consulta no posto de saúde que funciona em frente à sede do grupo. Três das integrantes do grupo, por sinal, são agentes de saúde", fala Mariana. Mas, principalmente, as senhoras ouvem as pessoas, que, muitas vezes, mais do que do medicamento, precisam de um atendimento humanizado.
"Dada a fragilidade da estrutura social, as vovós cumprem um papel de transmissão de informações preventivas de saúde, o que é fundamental nas comunidades em que vivem", fala Mariana. Para cada uma dessas mulheres, a grande motivação é a sociabilidade. "Elas renovaram seu status, em vez de "velhas" passaram a ser vistas como detentoras de um saber. Com isso, elas fogem da solidão, ganham um novo papel na comunidade e consolidam uma nova identidade positiva", conta.
No caso das dez mulheres do Grão de Mostarda, várias já se envolviam com atividades ligadas à comunidade, fosse o círculo bíblico, o clube de mães ou a associação de moradores local. Elas também contaram com o apoio importante do agrônomo Márcio Matos, que faz trabalhos de agricultura urbana; da homeopata Suzana Nogueira, voluntária em comunidade de São Gonçalo; de Sonia Regina, que estava envolvida em trabalho na paróquia de Queimados; e de Beth Martins, uma das coordenadoras do grupo. "Essas líderes tiveram um papel importante na criação da rede", diz.
Arquivo pessoal

As mulheres da Rede Fitovida querem ver o saber popular reconhecido como patrimônio imaterial A estrutura que o grupo conseguiu manter impressionou a pesquisadora: na cozinha comunitária, elas usam luvas e toucas, balança de precisão, potes estéreis para acondicionar as tinturas fora do alcance da luz e receitas sistematizadas. As plantas, que saem da horta cuidada pelas mais velhas do grupo, são colocadas em infusão para delas se extrair a tintura. Essa tintura é que servirá de base para todas as formas de medicamento que se quiser preparar: xaropes, pomadas, cremes, ou a própria tintura. "As mulheres do Grão de Mostarda têm noção dos limites do tratamento. Orientam para os cuidados que se deve ter com certas plantas consideradas tóxicas, como a arnica e o confrei. Alergia, por exemplo, elas sabem que não têm como ser tratadas com plantas", diz.
Mariana também observa que as mulheres do grupo mostram sua crença na medicina alternativa, sem qualquer discurso religioso. "Não tem aquela história de rezas, espinhela caída ou ventre virado. Na troca de experiência com outros grupos, elas agora estão aprendendo bioenergética e sobre o uso terapêutico da argila", anima-se a pesquisadora.
Tamanha riqueza de experiências foi registrada pela câmera de Mariana, que seguiu as pegadas do antropólogo Jean Rouch, um dos fundadores da moderna antropologia visual. Para Rouch, os grupos não são apenas objeto de estudo, mas sujeitos com voz nesse processo. No vídeo, uma das mulheres chega a afirmar, entusiasmada: "Agora, com a atual onda de naturalismo, as pessoas têm valorizado mais estes recursos alternativos."
"Usar o audiovisual na pesquisa antropológica permite compartilhar com o espectador uma riqueza de detalhes, o que nenhum texto seria capaz de dar conta. Esse tipo de produto final faz com que o conhecimento produzido possa superar os muros da academia e circular mais facilmente pela sociedade", afirma Mariana. No caso da pesquisa, o grupo também tem cópias do filme para promover as exibições que quiser. Curandeira é a vovozinha foi inscrito na 12ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico, que acontece no Rio de Janeiro, em novembro. No que depender do entusiasmo das mulheres da rede, certamente será selecionado.

© FAPERJ – Todas as matérias poderão ser reproduzidas, desde que citada a fonte.

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